Archive for Março 2011

Basic Space


"I'm setting us in stone
Piece by piece before I'm alone
Airtight before we break
Keep it in
Keep us safe"


Consegui a proeza de me perder dentro de mim. Num corredor com janelas quebradas, vultos que olhavam-me através das fechaduras de portas desgastadas.
Mas isso por que eu estava correndo. Com medo daquele lugar que eu jurava não me pertencer.
Então, cansada, encostei-me a uma parede com vários bonequinhos desenhados. Eu os conhecia. Eu os tinha desenhado. Meus velhos amigos.
E pouco a pouco fui me reconhecendo ali. Entre rabiscos, amigos imaginários nunca imaginados, livros, cadernos rasgados, bonecas enforcadas...
Por muito tempo deixei minha voz calada. Tive medo de que todos soubessem o que eu pensava sobre o mundo. Mas então ela me disse que nada diria a ninguem e que o melhor para nós sempre era o diálogo, ou seria monólogo?
Percebi que não estava mais escuro, pois até mesmo a escuridão fazia parte de mim.
Jamais pensei que problemas surgissem de soluções. O mundo prático me ensinara isso.
Conheço tudo ali. Mesmo sendo tudo desgastado, rabiscado, rasgado... Ali me sinto segura. Meu espaço básico. Não uma fortaleza. Apenas um espaço básico.
Via ali rastro de outras pessoas também. Amigos, amores, rabiscos de antigas dores. As frases que eu evitava falar durante os dias estavam todas ali. Tais frases lembrando-me de quantas pessoas deixaram uma marca em mim, uma marca naquelas paredes. E que elas não se importaram nem um pouco pelo tempo que gastaram ali.
Fico triste ao perceber tão tarde o quão tolas minhas decisões foram durante os ultimos 20 anos, todas elas marcadas ali, tão nítidas pra quem quisesse ver.
E eu achando que conseguia ser um livro fechado, um poço de mistérios. Quando na verdade estava com os olhos vendados e um holofote sorbe mim.
Andei mais devagar, limpei algumas janelas, vi um céu nublado lá fora. Era o meu favorito.
Agora estava tudo bem.

Perdi me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
[...]
E sinto que minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Dispersão - Mário de Sá Carneiro

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