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Eu por Nós

Nublado. Frio, pouco vento.
Na verdade, muito nublado, muito escuro. Tivemos que acender algumas velas. A energia elétrica sempre sumia por essas horas.
Almoçamos a luz de velas.
Você deixou de elogiar minha comida há alguns meses. Talvez a falta de emprego fosse o que apenas ocupava sua cabeça. Talvez fosse... Não, estar desempregado sempre te incomodou. Ou talvez porque você sempre ficava calado depois de nossas brigas. Elas se tornaram constantes.
Brigamos porque eu não queria que gastasse uma vela. Não sabia se íamos ter dinheiro para pagar a conta de energia do mês. Melhor prevenir.
Mas você não quis, acendeu a vela e a colocou lá, toda imponente. Pensei comigo mesma que você apenas queria ver meu rosto enquanto comia. Nada disso aconteceu. Você terminou de comer, lavou seu prato e saiu.
Fiquei na mesa remexendo a comida pra lá e pra cá. Era meu dia de folga.
Nunca gostei de folgas. Elas me cheiravam a nostalgia. Nunca havia coisas pra ocupar meu tempo. Pra impedir-me de folhear o passado, de sentir falta e desejar sair daquela casa. Da nossa casa.
Você não fazia a miníma ideia do que se passava dentro de mim. Fechou-se em sua bolha de preocupação e se quer perguntou porque eu andava tão enjoada ultimamente, tão chateada, aborrecida.
Nosso quintal estava cheio de lama. A chuva não dava trégua. O jardim estava destruído. Mas ainda assim peguei uma cadeira e sentei bem no meio. Finquei meus pés na lama. Estava fria e bem no fundo, dava pra sentir que alguma grama sobrevivera.
Tentei imaginar a gente como aquela grama. Sufocada por lama. Sufocados por problemas. Cada um por si. E eu por nós.
Eu sempre lutando por nós.
Havia uma bagunça dentro de mim. Medo, nervosismo. Eles comandavam.
Queria você ao meu lado como no começo, nem que fosse ao menos pra dizer que tudo ficaria bem, que não ficaríamos longe um do outro.
Perdi o tempo ali, sentindo cada pedaço do meu corpo, sujando os pés na lama. Nem percebi quando você chegou. Ficou parado na porta me olhando. Parecia ter envelhecido 10 anos. Mas ainda assim era o meu Bernardo.
Fiquei a olhar-te, e tu lá. Na soleira da porta. Ali na lama eu era só uma menina travessa, pedindo atenção. E você continuava parado. Abaixei a cabeça, sujei mais ainda as pernas. Então, sem mais nem menos você se aconchega ao meu lado, seus pés na lama brincando com os meus.
Espero um pouco, sinto teu cheiro, brinco com teus cabelos, tu beija-me a nuca e sussurro: "tudo vai ficar bem, meu menino". Mas não é pra ti que falo e sim para meu ventre, para nosso filho. E nem isso tu percebes. Sussurro então dessa vez pra lama: "És apenas um teste, mas mesmo sendo um, ainda divirto-me contigo". E tu continuas a brincar com meus pés na lama. Acha apenas que estou a citar trechos de livros novamente. Por fim, seguro teu rosto com minhas mãos: "Vou embora amanhã. Voltarei para minha cidade".
E nenhuma feição muda. Olhos cabisbaixos, as olheiras de sempre, a barba por fazer, as sobrancelhas caídas. Nada muda. Era sempre eu por nós.

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