Fugitivos

- E a verdade é que aos poucos as palavras vão fugindo de nós.
Ela disse de cabeça baixa, riscando com o dedo a areia da praia recém banhada pelos novos raios de sol que a iluminavam.
- Não seríamos nós os fugitivos, Julia?
Henrique indagou olhando para ela. O sol lhe dava uma aparência de natureza pura, quase que angelical. Mas só ele sabia do que aquela mulher era capaz.
- Depende do ponto de vista.
- Dê-me um exemplo então. Insistiu ele a inclinar o corpo na direção dela.
Julia respirou, como se pudesse sugar todo o ar. Fechou os olhos e deixou a luz do sol banhar sua face.
Aquele era um novo dia. Para ela, sua vida estava começando ali. Seu passado já não importava mais. Deu por conta que ainda estava na praia e por fim respondeu a curiosidade do irmão:
- Bem sabes tu, que tudo na vida é relativo.
- Sim, compreendo bem esta posição na vida. Continue.
- Quando conhecemos uma pessoa nova, e ela nos chama atenção. De pronto oferecemos nossa atenção. As conversas vêm e vão sempre longas e desejosas de mais e mais. Com o tempo, a frequência vai diminuindo. Não por falta de confiança, mas pelo excesso da mesma. Você passa a conhecer tudo sobre a outra pessoa, que já não se faz mais necessário o diálogo.
- Mas isso não faz das palavras fugitivas, Julia. Elas apenas foram acomodadas.
- Nesse exemplo sim, Henrique. Mas o homem é feito de atos banais e por vezes, tornam-se inexplicáveis. Por isso digo que as palavras fogem de nós.
- Concordo com tudo o que dissestes, mas para mim também nós cabe o papel de fugitivos.
- Ao homem cabe todo o papel. Não sabes tu que melhor ator não há, do que aquele que ainda está vivo? – Ela olhou para ele com a face interrogativa – E aonde nos cabe o papel de fugitivos, Henrique?
- Quando fugimos da verdade.
- E o que sabes tu sobre a verdade?
- Bem sei que desde o nascimento fui privado dela. Pra mim, verdade é tudo o que nunca tive.
- Não te cubras com escárnio, irmão. Este papel foi reservado para mim. E eu o privo deste sacrifício.
- Então faremos um trato, eu me privo do escárnio e tu de ser carpideira!
Eles riram jogando as frontes para trás. Julia levantou-se e estendeu a mão a seu irmão:
- Feito então. Agora te apressa o passo. Temos que cuidar do corpo antes que comece o mal-cheiro.
- Tu o tratas como se ele não tivesse feito nada de mal a ti.
- E como queres que eu trate o corpo de um infeliz? Já tenho minha liberdade. E dela não abrirei mão jamais. Não tenho passado. Nasci hoje e estou aprendendo a andar. A andar não! A voar!
Julia saiu correndo pela praia, dando pulos e rindo rumo ao carro que estava no estacionamento.
- Julia me surpreende. É coberta de escárnio e sarcasmos, e ainda tem a alma livre depois de ceifar uma.

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Os Delatores

Duas mesas, uma em frente à outra. Era uma sala pequena, apenas uma janela, pela qual nem se dar pra sonhar. Era um fim de tarde. Fim de expediente. Faltava apenas um cliente ser atendido. O clima estava seco. O silêncio e a desconfiança eram os chefes ali.

A campainha soou. Nenhum olhar trocado.

E então, a sala pareceu insuficiente para aquelas três pessoas. Os diálogos eram rápidos e formais. Nenhum olhar trocado.

― A senhora pode me ver a cópia do contrato?

― O senhor vai querer apenas a cópia?

Eram três pessoas, e apenas uma tentava captar algo além das falas submersas em um mundo cinza. Duas mulheres, mãe e filha – chefe e subordinada -, e um homem, o cliente.

A jovem observava tudo atentamente, com tal interesse que pode ser comparado a uma devoção a um deus. Mas lhe faltava algo.

Nenhum olhar trocado.

Aconteceu muito rápido. Todas as informações conferiam. Faltava apenas a confirmação.

E ocorreu, como qualquer outra coisa extraordinária, entre um piscar de olhos.

Eles se olharam.

Primeiro os adultos, depois mãe e filha, e a seguir, o homem e a jovem.

Tudo se confirmou. Nenhum olhar trocado. Nenhuma palavra foi preciso ser dita. Fim. Acabou. A vida deles continuou a mesma. O silencio e a desconfiança continuam sendo os chefes. E o segredo da traição jamais será revelado.

Porem, os olhos jamais deixaram de ser os delatores.

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Papel-pape-pap-pa-p

Sonhos, o futuro em algumas folhas de papel. E tchum!
Mais folhas de papel e o seu nome na lista. A alegria é contagiante. Mesmo que lá no fundo a indecisão ainda esteja lhe cutucando com um graveto no estomago.
Mais papéis para a matricula. Correria atrás de outros papeis e enfim, o sonho já não é mais sonho. E já tenho que pensar em outro para por no lugar deste. Talvez seja como Pessoa diz: “Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda chuva contra um raio.”
Mas eles são necessários. Sem eles não posso manter-me sã. E sem eles não posso me diferenciar.
Dependendo do modo como vejo, a vida pode ser simples. Mas espere um minuto! Eu ainda não me tornei um adulto sem sonhos e dizer que a vida é assim e acabou-se.
Minha mente turbula-se com o novo fato. Mais responsabilidades? Sim, talvez infelizmente sim se for encarar por este lado. Se por outro ângulo eu diria que seriam mais desafios para se derrubar. O melhor ponto de vista talvez seja o ultimo.
Os dias passam e novas palavras são repetidas dia após dia. Remanescente, hortifrutigrangeiros, futuro. Nossa, o futuro nunca esteve tão presente a cada 10 palavras do professor de gestão. Ele é chegado nos papéis, mas parece ter uma obcessão por reciclados.
A correria continua, os prazos são os mesmos. O corpo envelhece, e a mente evoluiu. Preciso de um lugar para descançar.

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