Resposta Seca

Demorei a responder teu poema meloso
por medo de soltar palavras duras.
Tu fostes guiado por Neruda
Que em tão fervoroso amor
Acabou por enfim entregar-se sem pudor.

Amigo, palavras dóceis não te darei.
E nem dela deves esperar.
Sei que julgo e jogo alto
Mas dela nenhuma canção irá vingar.

Ela mesma se condena e só ela pode se salvar.
Tu escolhestes o mar de rosa
Onde só vais se espinhar.
Desgostosa eu acompanho
Esse jeito estranho que vocês tem de se amar.

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Hermosa


Te observo tentando absorver os mínimos detalhes, os pequeno traços, as pintinhas, os sinais de que há algum desejo ali por mim. Se teu suor, se tua saliva estão tão impregnados em mim quanto eu estou de desejo por ti. Será se essas palavras conseguem eternizar? Eu digo que não, que é pra gente viver mais. Igual a Mallu canta pro moreno dela. Mas é aquilo, meu amor. Vou bem devagar, vou sem cobrar. Gosto assim. Desse ritmo de botequim onde tu só me diz sim.
Vou te dando asas e assim tu sem perceber vai criando uma casa em meu peito. Respiro bem lentamente sem crer que depois de tanta ausência e tanta negação, a gente estava ali. Depois de muitos amores, muitos caminhos cheios de dores tu me ensina mais uma vez que o importante é viver. E cada dia vou dando uns suspiros escondidos, soltando uns sorrisos pela casa quando te vejo dançar do nada, sem música. Apenas pela vontade.
Esse romance que surgiu de olhares. É assim que lembro. É assim que permaneço. E é por isso que não canso de repetir no teu ouvido: "i can't take my eyes off you". Às vezes tu nem escuta, mas tudo bem. É só ver teu sorriso e pronto. Selado. Esqueço do mundo e até do chão. Saio voando por aí de tanta borboleta que há dentro de mim.
Como quem não quer nada e no fundo queria tudo, fui e vou me achegando. Com cuidado, com carinho, com açúcar e afeto. Vou tentando te ajudar no teu caminho e trilhando o meu também. Vou tentando fazer eles se cruzarem sempre, igual nossas pernas ficam quando vemos a luz do sol invadir o quarto. Vou seguindo e sentido que já não preciso mais procurar por aí... porque tu já me achastes aqui.

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De cigarro em cigarro


A gente se perde em muitas ruas. Literalmente ou não, continuamos a andar, sem rumo e sem pressa. Por mais que a boca teime em dizer que hoje o tempo voa, amor. Mas a única coisa que escorre pelas mãos é o pouco dinheiro que ganho e não sei administrar.
A gente busca muitas coisas também. As quais depois de cinco minutos perdem por completo o sentido. Não existe faculdade dos sonhos, viagem planejada, consulta com hora marcada ou o grande amor de uma vida. Existe isso que vejo nesse exato momento em que escrevo. Não tem sol, não tem lua e não vou rimar dizendo que a única luz que existe aqui é você. Porque não é, meu amor. Mas baixinho sussurro no teu ouvido que teu sorriso me ilumina, dá certo sentido na vida. E se te digo é porque naquele momento o é. As coisas ditas tem prazo de validade. Uma vez ditas e ouvidas, já não valem mais. E não adianta repetir. A sensação já é outra.
De cigarro em cigarro, Luiz Bonfá vai ficando com os dedos calejados de tanto repetir. Eu também fico cansada de ter que te esperar. Saio vivendo por aí. Sem pretensão de nada, arruinando qualquer esperança criada naquele momento do cigarro na madrugada. O silêncio, a fumaça e o olhar suplicante. Não preciso nem dizer o que é que me mata. Esse verão não fui nada doce. Não morri de amores e saio às vezes a questionar quando é que o arrebatamento vai vir.
Acho graça em dizer que tu feito Rita levastes tudo de mim. E no fundo eu sei que a verdade foi eu que te dei tudo e fiz questão de não pedir de volta. Hoje já não tenho mais nada a ofertar aos novos amores. Olhares suplicantes na madrugada, nunca aprendi a dizer não a eles e fui ficando, preenchendo essas lacunas de amor com trechos perdidos, escritos anônimos e copos vazios.
Queria ao menos sentir que tua ausência me rasga, dilacera a alma. Dizer que estou enchendo a cara, que perdi o emprego, que o peixinho dourado morreu, que cansei de te esperar. Tocar fogo nas tuas roupas, cortar teus livros, as fotos de domingo, os vinis do bazar judeu. Mas nada disso acontece.
Cada fim de noite eu chego em casa, luzes apagadas, a samambaia na varandinha. Tudo no mesmo lugar. Um dia tu aparece. Feito gata de rua vais chegar observando, sondando, cheirando tudo. E pouco a pouco se aproximando de mim. Com os olhos mansos, trazendo de volta minha paz. Aquele aconchego sem fim.

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take me out tonight

Nós estamos beirando o precipício. Do quê exatamente eu ainda não sei. Penso em você em várias horas do dia, e muitas dessas vezes é bem confuso. Uma hora tudo é proibido, o silêncio impera, você me olha de esguelha, feito cigana dissimulada. E é tão injusto dizer tudo que é pra ser dito. Os mundos parecem se multiplicar. As línguas se misturam e todas as bocas estão secas. Sem voz se quer para questionar.
Você volta e sinto a agonia da tua partida, já ali, pronta. Debaixo dos teus pés. Lembro logo de uma velha frase minha, algo como "passo a gostar como se ja tivesse perdido". É assim que me sinto contigo. Quando aceitei, vi que te perdi. Os mais confuso é que não há contagem de dias. Não há limites de dias pra você ficar, não há limites pra ficar fora. Não há contagens pra saber quando voltarás pra mim.
Caminho pelas ruas e várias vezes te vi por aí. Pensei em gritar seu nome, dizer que seu violão ainda está lá em casa, do mesmo jeito que você deixou. Pensei em chamar pra um café, uma cerveja, um vinho. Tanta sede e tudo sobre você.
Aos poucos vou tomando conta de teu ser. Tua pele, teu cheiro, teus beijos, suspiros e sussurros. Tudo o que posso guardar apenas comigo. Tudo o que só eu poderei saber. Tudo o que você não pode levar em meio a cada partida.
A meu ver tudo pode ser simples, mas tu e teus mistérios me deixam louca. E não adianta dizer que é por proteção. Eu sei. O abraço e beijo na nunca não é algo fácil de se esquecer quando Smiths toca ao fundo. Sempre suave, com risos tortos e as mais sinceras citações. Os complementos que ao caminhar perdida por essas vielas e acabei encontrando contigo. Ficaria por muito tempo apenas a olhar teus olhos, no mais velado silêncio, procurando qualquer vestígios de que tua volta será mais rápida que a última vez.

Todo precipício tem a sua beleza.

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Désespoir agréable

A vida inteira estive acostumada a resolver ou tentar amenizar minhas inquietações sozinhas. Digo inquietações que é pra vida não parecer tão problemática do que ela já é. Desde pequenas coisas, como por exemplo, o despertador. Nunca aprendi a lidar com ele. Acabava dormindo tensa por não querer acordar com aquele barulho aterrorizante. E é verdade quando digo que toda vez acordo antes do despertador. As raras exceções envolvem quando durmo com outra pessoa. Parece que deixo a responsabilidade pra ela de lidar com o despertador.
Poucas vezes esse contrato deu certo. Alguns dias. Nos restantes me batia um aborrecimento. Quando inventaram a porcaria da sonequinha de 5 minutos foi a minha morte. Você dorme e aí de repente vem o barulho. Daí você dorme e novamente o barulho. Não dá pra acordar de bom humor assim. 
Hoje achei aquele guardanapo que rabiscamos no bar. As tais combinações, pois dizer limites não te agradava. "Não há limites, Fernão". Sei que no meio das combinações tinha algo sobre proibir despertadores.
A primeira delas: nada de declarações. 
Era a que mais me afetava. Logo eu, acostumada a mimar em todos os modos. Só me era permitido tua pele. Ali eu poderia me declarar o quanto quisesse. Tu preferias sentir do que ouvir, do que ler.
Essa era a combinação máxima: sentir sempre.
E a gente sente tanto que chega a doer. Você encontrou um meio de entrar na minha vida tão sutilmente que já nem percebo mais quando estás passeando pelos corredores mais escuros de minha mente. A música é a chave. Sempre foi. É através dela que vou te conhecendo. Não é clara feito água, mas ajuda. Deixei o vinil do Erik Satie tocando, o mesmo que toca naquele conto do Caio Fernando Abreu que você leu pra mim. Não lembro o nome agora. Só lembro que me apaixonei mais quando você colocou esse piano suave ao fundo, acendeu o cigarro e começou a ler Caio no meio daquela tarde quente. 
É um daqueles momentos em que a gente se desliga do mundo e apenas escuta. O piano, sua voz, as palavras de Caio. Virou um mal costume que não conseguimos desfazer. Ler, fumar, música, nós. Estamos doentes e não somos nossa cura. E nem de longe queremos cura. A intensidade de sentir é o que move. E a gente se move bem devagar, tentando não levantar poeira, não chamar atenção. Mantendo as inquietações no peito e criando muitas outras. 

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Fatal


A tempestade chegou. Uma porrada de informação por todos os lados. Uma urgência em absorver tudo o que falas. 
És fatal. Também sei ser. 
Mas meu bem, a sinceridade que tenho contigo não é para assustar. Não é para afastar.
Começamos com um prazo de validade não determinado. Oficialmente não começamos nada. E ainda assim há muita urgência a todo momento que estamos juntas. Somos o pecado do mundo. Desse pequeno mundo até então desconhecido por nós. Se te falo de meus amores que já se foram não é para espantar. Aqui não há limites, podes chegar.
O encantamento não veio atrasado. Ele foi velado desde as primeiras palavras rimadas que me destes nas madrugadas ébrias e sóbrias também. Guardei este encantamento mal guardado. E se não falei foi por medo de perder essa sensação de urgência que sinto em te ter. Deixei pontas soltas pra te mostrar e te lembrar que não foi obra do acaso eu te procurar. Sendo esse tempo tempestade, se um dia ela acabar espero que não estejas tão longe.
Afinal, a gente não pode roubar o que já possui.

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A Gata em Prosa


Saber o peso das palavras incomoda. Saber que tu tens a mesma noção pesa mais ainda. De tudo que foi dito ou de tudo que ficou preso no olhar. Sério, sem rugas de riso ou choro. Fixo. Com respirações profundas e lamentações silenciosas acerca da distância que sempre castiga.
Atiramos flechas ao horizonte e cruzamos os dedos para que algumas tenham caído no mesmo lugar. Quem sabe um dia a gente termine o café em silêncio e sem correria. Só é difícil prever se algum dia irei parar de dizer teu nome completo sem algum resquício de fascínio, se irei parar de olhar pra tua boca sem desejar beijar e sussurrar versos que não me pertencem.
A gente tenta fugir dos clichês mas eles são tão inevitáveis quanto usar surreal numa frase. Ou tão inevitável quanto pitu e limão no fim do mês.
É muito difícil esconder nessas palavras o encanto que tenho por ti. Esse encanto que só o álcool liberta naquelas noites mais loucas. E a gente se esconde, engole álcool e palavras que é pra não machucar mais do que já nos machucamos nessa vida toda sem qualquer culpa acumulada. Faz da noite o único domínio onde tudo é permitido e ao sol nascer não tem café amargo que desenrole conversa sobre as marcas que você deixou pelo meu corpo ou frases que deixei rabiscadas nas tuas costas.
Engasgo, dou um abraço com aquele tapinha ridículo nas costas e vou embora sem olhar pra trás. Soco bem fundo da alma qualquer vontade de puxar conversa contigo. Encarno qualquer cretina e sigo caminhando com o copo cheio de vinho suave numa tentativa infantil de te provocar. Sei que não engano nem meu próprio reflexo e aqui as palavras não tem peso algum pois estou afogada.

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