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Conversa imaginária com L. Moreira

Já é tarde da noite, estamos as duas na varanda, olhando o céu estrelado, bebendo alguma coisa alcoólica ao som de alguma boa musica e grilos desocupados. Como chegamos as duas naquela varanda não faço idéia. Talvez estávamos lá há tanto tempo que não percebemos. E talvez só eu tenha notado isso.
- Odeio o canto dos grilos. Declarei por fim quebrando o angustiante silencio que nos cercava. Realmente não sei manter-me calada.
L. Moreira bebericava olhando para o céu. De fato a noite estava bela. Jamais achei que o silencio fosse uma tortura, pelo menos nunca achei em meus momentos de reclusão interior. Mas o silencio dela me agoniava, levava-me a falar besteiras a fim de chamar qualquer atenção. Às vezes tinha impressão de que nem minha voz saia mais. Uma nuvem tapou nossa visão.
- O que foi Carol?
Olhei pra ela interrogativa. Eu estava em silencio? L. Moreira olhava-me com simplicidade ou cumplicidade. Ou as duas coisas. Respondi por fim:
- Não sei, achei que bêbadas falavam pelos cotovelos.
Ela soltou um riso pelo nariz. Sempre tive curiosidade de saber como era a L. Moreira soltando um riso pelo nariz.
- Você está calada. Ela falou tomando mais um gole de algo que eu já desconfiava estar quente só pelo tempo em que estávamos ali.
É eu estava bêbada. Jurava ter falado asneiras em busca de atenção e no final elas nem saíram de minha boca.
- Se não quer que eu fique aqui, é só falar. Eu vou entender. L. Moreira falou interrompendo meus pensamentos já embaralhados.
- Não é você, pare de drama. Acho que estou bêbada.
- Haha! Bêbada depois de três taças?
- É, eu jurava estar falando besteiras sozinha. Até os grilos miseráveis calaram.
- Grilos? Que grilos?
- Os que estavam cantando, ué.
- Ta bom, Carol. Acho que já chega de bebida por hoje.
- É, você tem razão. Minha úlcera vai atacar amanhã.
- Úlcera, Carol? Pare de drama você. Depois que leu Nelson Rodrigues qualquer cólica abdominal torna-se úlcera. Vai querer dar papinha às três da manhã pra ela também?
Olhei no relógio e exclamei:
- Oh céus! Já passam das quatro! Perdi a hora da papinha!
Nós duas rimos bastante. Os grilos voltaram a cantarolar sua cantiga de amor, as nuvens dispersaram-se, estava mais frio e as bebidas quentes. Todo um conjunto perfeito de amizade.
- Que bom que tenho você aqui. Declarei em meus últimos impulsos inconscientes.
- Eu que o diga, Carol. Eu que o diga.
- Nossos corpos nos chamam. Falei com a voz embargada de tristeza. Era tão bom estar ali.
- E temos outra opção?
- Acho que não. Até a próxima e procure manter nossa varanda limpa.
Ela riu e estendeu a mão. Alguns raios de sol já teimavam em sair.
- Vou fazer o que posso.
- Você pode tudo Mulher Maravilha.
Segurei sua mão e partimos sorrindo. De volta aos nossos corpos mortais. Ela voltou para seu corpo em Minas e eu para minha carcaça em Roraima. Acordei com a luz e o som do despertador que coincidentemente parece com o canto dos grilos. E então a lembrança do sonho veio à tona. Seria apenas minha imaginação? Ou uma visão, premonição, qualquer coisa do tipo que o futuro nos reserva?
Não sei, não sei. Só sei que a L. Moreira parece não ter conseguido ligar pra mim na noite passada.

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