Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las

- Agora temos duas horas de diferença nos separando.
Lá já passam de uma da manhã, ela com certeza está prestes a dormir. Mas não posso recusar essa conversa. Afinal, eu mesma tinha começado. Gosto de nossas conversas. Gosto do seu riso fácil. Há também seus textos e para minha surpresa: poemas. Era disso que falávamos antes, só não sei como chegamos nesse tópico.  Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las.
- O que são duas horas de diferença... Imagina, poderia ser um oceano.
Ela mal sabe, mas eu tenho pavor de oceano. Nunca estive em um, mas oceanos tem me separado de alguns amigos. Uns voltaram e acertamos nossos passos, outros decidiram ficar no velho mundo.
- Um oceano é terrível! Aumenta a diferença para seis, sete, oito horas!
Você, a calmaria nessa madrugada, soube amenizar a distância. Afinal, pra quê pensar nela se há tantos meios de estar perto? E nossas palavras, nossas prosas e agora piadas, fazem todo o trabalho. Juntam todo esse laço que de tão embolado em versos, músicas, desenhos, insônias, cervejas, batatas é difícil de separar. De nos separar. Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las. Estou tão bêbada que me sinto corar, mas você leva na graça, faz pirraça e tentar se aproveitar. Eu leio teus poemas, me enrolo nas rimas e no dadaísmo que neles há. Elogio e ainda assim não acho que tenha feito elogios diferentes pra te incentivar.
- Esse lado poeta que tanto escondes
Mostra mais do que tuas prosas
Esses versos ora mirabolantes
São silhuetas escaldantes de um ritmo enebriante.
Você não sabe como foi difícil escrever silhueta. E essa rima foi mais pobre que minha conta bancária.
- Eu gosto do jeito que você escreve.
- Estamos empatadas, pois.
E quantos anos vamos levando nas costas essa amizade que coube de engatar direito só agora? Pensando bem, antes tarde do que nunca. Gosto de dizer que estás segura debaixo do meu sovaco e sei bem que me entendes junto com um sorriso de canto.
- Vou ler os outros poemas, não fuja.
- Estarei aqui.
Já não faço ideia de que horas seja. Meu corpo estava esgotado, mas queria continuar ali, conversando contigo. Havia um peso enorme fechando meus olhos. Teimei por um bom bocado de tempo, você raramente conversava comigo pelas madrugadas. Não, na verdade era eu que nunca tirava um tempo pra conversar com você nas madrugadas. Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las. Apenas um olho aberto. Eu estava ficando velha. Algumas cervejinhas e já estava cochilando. Rendi-me, então.


Tem outra versão aqui, no Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez

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4 Responses to Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las

  1. Estamos empatadas.

  2. Juliana says:

    Canso "do mesmo" e imagino fugas. Viagens de carro, de trem e de moto. Estradas e grandes extensões de terra, de água... Oceanos. Não tenha medo dos oceanos. Eles são as barreiras mais transponíveis que separam as pessoas. As mais calmas.

  3. Um oceano imenso de saudade e identificação, Ágda.


    ''E quantos anos vamos levando nas costas essa amizade que coube de engatar direito só agora? ''

    A sincronia do tempo é um ponto de interrogação, acho que vamos morrer sem entender como funciona.


    <3

  4. Isabela Mena says:

    Ahhhhhhh, que lindo, menina!