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Pierrot



Eu estava assistindo Pierrot Le Fou, do Godard, quando apareceu Ferdinand e as dinamites. Eu já havia visto aquela cena, tu havias me mostrado há algum tempo. Depois disso não consegui parar de pensar em ti. Comecei a assistir outro filme, mas tu estavas tão presente em minha mente que ao olhar para o outro lado da cama lá estava você.

Com seus óculos de armação grande e dourada, seu cabelo amarrado num coque e sua franja bagunçada. Tu escrevias avidamente no notebook que parecia nem perceber que eu estava lá. Eu sabia que escrevias sobre outra pessoa, mas eu ainda esperava que um dia tu escrevesses sobre mim.

Isso só iria ocorrer quando eu saísse da sua vida. E era algo que eu não queria. Pelo menos naquele momento.

Aproximei-me de ti. O outro filme continuou passando na TV. Eu queria e não queria que tu notasses que eu estava lá. Talvez por medo de você sair da minha vida.

Você colocou Chico pra tocar baixinho e me olhou sorrindo. Sabia que eu gostava daquele malandro mais do que ninguém. Cheguei mais perto, ajeitei sua franja, beijei tua bochecha e cantei:

- Eu sou pierrot...

- Mas é carnaval. Você completou colocando o notebook de lado.

Acho que se estivéssemos na mesma cama, eu falaria mil bobagens pra te ver sorrir, tocaria de leve sua pele e recitaria as odes de Ricardo Reis. Falaria de Modigliani e desenharia alguns quadros dele nas tuas costas. Escreveria versos no espelho do banheiro e te levaria ao parque sempre que o sol te deixasse mais linda. Tu sorririas, me daria beijos e deixaria bilhetes pela casa com versos de músicas. Dividiria o café comigo em qualquer momento, falaria de filmes que preciso ver ao teu lado e me faria ver quão bela é a chuva. Você seria bem mais importante do que o número 7 é na minha vida.

Eu tinha um belo diálogo formado na cabeça, onde não havia fim. Onde você sorria pra mim e ficava ao meu lado. E até sei que você vai sorrir pra mim e vai ficar ao meu lado, mas não como eu preciso. Ou pelo menos como acho que preciso.

Então você não estava mais no meu quarto. Chovia lá fora e dentro de mim.

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