Café Planetário

A qualquer hora, café. Só café. Pergunte se tenho tempo pra ir ao batizado de um sobrinho que te direi que não. Pergunte se tenho tempo pra um café na esquina, que já estou puxando o banquinho e estendendo a caneca. E aí divago.
Já pensou? A qualquer hora, amor. Bem ali. R$0,50. Baratinho e quentinho. Ainda dá pra dividir com amigos. Mas não qualquer amigo. Tem que ser aquele que também divide, aquele que dá um abraço forte mesmo quando não se precisa de abraço. No dia quente, na noite gelada.
Vendo café, pagar com abraços. Vendo abraços, pagar com café. Bem encorpado, forte, na medida certa. E aí, na falta dos trocados, dou amor. R$0,50. Não engorda e não mata. Na falta das moedas dou amor.
Botões, toques, moedas. Parece tudo prático. Plástico. Nada natural.
Daí o busco. O natural. E acho. Acho-o sensacional. Lá no planetário. O café Planetário, digo.

- Um café, por favor.
- Só um café? Temos um bolo delicioso.
- Só café.
- Tem certeza? O bolo tem uma calda deliciosa de chocolate que eu mesmo fiz.
- Olha seu moço, eu só tenho dinheiro pra um café. Então, um café, por favor.
- Ah sim, desculpe.

Talvez vender amor, ou dar amor de troco não seja algo bom. Tem tanta gente que nem isso pode. Tipo eu. Nem amor eu posso. Fujo dele. É mais fácil. Só fico andando por aí. E até me apaixono às vezes e quando percebo, fujo. É mais fácil. Só machuco de leve. De raspão. Sara rápido. Um café depois e já esqueci. Na esquina seguinte começa tudo de novo.

- Seu café é uma cortesia da casa.
- Olha, eu poderia dizer que não sou mendiga pra aceitar esmola. Mas sua calda tá tão apetitosa que vou engolir esse orgulho junto com ela.
- Então divide comigo, não foi eu quem fiz a calda. Ai engulo minha timidez junto também.
- Ora! Como não? Tu me disse a pouco...
- Disse. Mas foi só uma cantada de muita sorte. Anda, me dá um pedaço grande.

Tá quase na hora da fuga. Mentiu pra mim, me deu uma fatia de bolo deliciosa, pediu um pedaço grande e burlou toda a formalidade que quase não existiu entre a gente. Bebeu do meu café. Queimou a língua. Disse que café não era pra ele. Café é coisa de gente séria. Perguntei-lhe se eu parecia séria. Ele disse que não, mas porque gostava de mim. E só por isso não me achava séria. Nesse momento sei que há algo além disso. Nós dois queremos algo além desse café. E então eu já estava quase fugindo. Terminamos o lanche, tínhamos que voltar ao trabalho. Ganhei carinhos, beijos roubados. E roubei beijos também. Não nasci pra ser santa. E afinal, já estava fugindo. Antes de fugir há de se pelo menos conhecer o caminho que em breve será abandonado. Que será largado por muito tempo até topar numa esquina de novo, em algum café no fim de tarde, no meio da noite, no raiar do sol.
Despedia-me do café Planetário. Do bolo e café delicioso. E do garçom também. Moço guapo que não gostava de café. Passaria bem longe dele. Do café Planetário, digo. Tão bom que era o café de lá.
Mas é isso. É só café. Tenho dinheiro só pra um café e nada mais. Quero só um café e nada mais. Não se iluda comigo. E aí sigo cantarolando: "Não me leve á sério, me leve apenas pra andar por aí".

This entry was posted in . Bookmark the permalink.

10 Responses to Café Planetário

  1. Senna says:

    A mais pura boemia em aromas de café...

  2. Daniel Lira says:

    A mais linda das poesias cotidianas!

  3. Darlan says:

    Eu prefiro Brahma, todos sabem, mas o ritmo das palavras foram tão aconchegantes que tô até desejando aqui um café no fim de tarde.

  4. Só tem medo do amor quem o tem facilmente #drama

  5. Nathy. says:

    Tua capacidade de relacionar os assuntos me espanta. Fui me surpreendendo enquanto lia esse teu post, no celular.

    Lembrei agora que este é o teu complemento qanto a mim. O café.

    Adoro tudo aqui, nesse teu cantinho.

    Quero ver quando vc for uma escritora famosa...

  6. Ana says:

    Podem jogar pedras em mim. Eu realmente odeio café.

  7. Anônimo says:

    Eu não gosto de café, na verdade gosto sim. Mas não do seu sabor físico, do que ele traz para mim. Manhã chuvosa, momentos de inspiração, a mamãe no fogão me preparando torradas. Me lembra a infância, quando podia até voar, conversava com meus amigos imaginários e, brincava de pintar!
    beijos amiga, espero que esse comentário vá!

  8. Sacha Mona says:

    Olha, eu não gosto de café, mas dividiria meu toddynho com vc...

    =*

  9. E essa troca, que é justa, é destinado ao universo inteiro. Por que quem ama, também deve gosta de café. O café aquece. O amor aquece. São um par perfeito, para se ter nas noites frias.

  10. Lari says:

    Há muito não tomo café, mas leite de soja também pode ser bem filosófico... Hehe
    Excelente texto, como sempre...