Benditos Marmanjos

"Benditos os que não confiam a vida a ninguém."
Livro do Desassossego. Trecho 61. pag 95. Fernando Pessoa

Eu?
Bom, eu confio a tanta gente que até me perco. Caio no chão. Quebro a cara. Sujo-me de lama. Tomo banho de risos, de rio, de mar. Como algodão doce no parque, bebo cachaça na praça, jogo dados na chuva pela madrugada, caminho no bosque sem rumo, mergulho no rio sem medo, sigo a 100km/h na hora do recreio, divido o lençol da cama sem briga, mato zumbis com armadilhas, escuto samba na calçada, faço uma tatuagem por mês, divido tudo em três metades, como sanduíches sem as alfaces, faço drama, sou precoce, tome porre, me visto de homem, fumo 4 maços por dia, bebo vinagre pra emagrecer, jogo Imagem e Ação pra valer, bebo vinho vagabundo apenas pra ler, conto minhas verdades para o vento, amo quem se oferecer para eu amar, espero o tempo que for pra te amar, brigo contigo só pra importunar, ignoro-te só pra preservar, escuto teu sorriso na beira do mar, toco violão em tua devoção, tiro foto das estações, dou-te o que quiser sem cobrar nada, reconheço-te sem nem ao menos te conhecer, abraço mais seguro que o meu não há, serei-te leal até minha memória aguentar. Confio a tanta gente que varo a noite madrugada a fora, contando os sonhos que outrora mal pensava em ter, os filmes que nunca quis ver, as viagens que nunca fiz. Por vezes as idas ao bosque que jamais estive, a cama que nunca deitei, o banco da praça que nunca vi, a grama que nunca sentei. Mas eles dizem que eu estava lá. Em uma estrela, num espaço da calçada, em uma gargalhada, em uma dose de cachaça, em um general, em uma piada sem graça, em crises de risos, nos raios tenebrosos da noite, no sol escaldante do meio-dia, na cerveja das cinco da tarde, na parada de ônibus, na madrugada fria.
E eu?
Bendita sou, pois largo minha vida por aí. Bendita minha vida que anda feliz com esses marmanjos por bares, bibliotecas, cinemas, calçadas, ônibus e madrugadas. Benditos marmanjos que fui arranjar.

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7 Responses to Benditos Marmanjos

  1. Nathy. says:

    Não me contive, te liguei, berrei, sorri, copiei e colei, guardei. Não dá, senadora. Tu me emociona de uma forma que poucos conseguem.

    Uma delícia identificar alguns dos momentos em que eu estive, aí, nesse texto lindo.



    Aaah, esses marmanjos!

  2. Daniel Lira says:

    Eu, que em ti confio, li e adorei, apaixonei-me pela poesia bem escrita dos teus versos a simplicidade da vida de quem vive no mundo das idéas. Saber que faço parte da vida pulsante que em ti tem me faz, cada dia, adorar mais ser teu amigo, beber contigo, andar, correr, sorrir e cantar sempre contigo. A-MEI!

  3. Você é muito mais impulsiva e espontânea aí no Acre (ignore). Devia ter trazido isso junto, a gente teria se acabado XD

  4. Darlan says:

    Um dos textos que mais gostei de ler aqui, certamente. Uma coisa me chamou atenção. "ignoro-te só para preservar", acho que é isso mesmo... tantas vezes fiz e ninguém entendeu, rs. Beijo!

  5. Alan says:

    espero que continuemos lançando a sorte nos dados por um longo tempo. Da próxima vez, eu deixo tu ganhar :)

  6. Anônimo says:

    Lindo,muito poetico

  7. Senna says:

    A onipresença é dadiva de poucos...