Archive for Novembro 2011

A Moça em Cetim

A gente - pelo menos quem ama verdadeiramente - tenta de algum modo eternizar a memória de quem amamos em algo, em alguém. Mas em alguém chega a ser uma traição. E só o que sei fazer são versos e é neles que tento guardar a memória de uma amiga que perto ou longe cuida de mim todos os dias. De modo único, ela se faz necessária nos meus dias. E os que passam sem uma palavra dela, são vazios, sem a plena graça da vida, do humor, da poesia. E é na poesia que tento esconder pedaços da Ju Cimeno. Porque somente eu e ela saberemos que aqueles versos tem o brilho de seus olhos, seu sorriso, sua voz... É através dos versos que quero mostrar meu amor por ti, J.



No trepidar das pedrinhas
sob o solado dos teus pés,
mil momentos se prendem
em loucos brados fiéis.
A moça em cetim passa
os olhos ameaçam
os dentes cerram-se
e a moça em céu passa.

Campos vastos pelo mundo
afastam-te de mim.
Tornam-me um moribundo,
servo de Afrodite, fraco e cego.

Tão fraco e seco, pobre de mim,
que inventos de carne e de cetim
lembrando-me que sim, sim, sim,
sim, sim, sim!
A vida assim
não tem sentido pra mim
se a moça que guarda na sua bolsa
os meus batimentos cardíacos
não me passa nem me passará
pelo gosto do seu vivo uivo maltido.

E assim, assim, assim
o cetim passa, a moça passa,
o céu passa, o sangue cessa.
Seca a máscara no rosto
as entranhas, artérias, veias, teias, seca
Racha.
Acaba.


Agradecimentos a Jacque e Anderson pela companhia nos versos e nas cervejas que ja nem lembramos mais.

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1º de Outubro

Para J.A

E esse Outubro que nunca se finda, menina?
É um eterno 1º de Outubro na tua presença.
Vinhos, poesia, nossos amigos,
signos solares astrológicos meteorológicos patológicos psicológicos
prevendo um futuro que nunca chega.

Mas nós bem sabemos que o tempo
está indo embora no carro solar e ninguém nota.
Tão absortos no voo de uma gaivota
desenhada num ano qualquer do século XVII
e que agora habita o Louvre.

E aqui nunca deixa de ser noite.
A sensação que tenho
é sempre esse 1º de Outubro que nunca acaba,
a noite não passa,
o som não cessa,
a garrafa não seca e tu não se cala.

"Tem agora a mesma idade que Maria,
abre só pra ti uma garrafa de ginja
e assiste calmamente o fim do mundo."

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De Frente em Verso

Minha vida é uma bagunça, tu sabes. Toda minha vida anda tão bagunçada que nem me preocupo em dizer se é a parte amorosa, acadêmica ou profissional que anda na mais pura algazarra, fazendo batucada na Avenida Rio Branco do meu coração.
E como se não bastasse, te coloquei no meio. E foi totalmente proposital. Talvez por culpa do sol ao norte equatorial, sequencial ou qualquer coisa pra usar como desculpa em não falar o quanto és especial. Provavelmente porque eu gosto de toda essa bagunça. Provavelmente porque tudo em ti me desperta uma curiosidade sem medidas que todos os dias tenho que domar. Orgulho maldito, serve como freio aos meus mais profundos desejos.
Fico imaginando muitos anos a frente de nosso tempo, no dia em que - quem sabe - escrevam uma biografia sobre minha vida. E o trecho mais importante para mim seria sobre esse bando de amores que ando tendo e nenhum me tem.
E que entre todos esses amores você consegue ser o único que machuca mais, o que detêm a maior parte da atenção e inspiração. Que provavelmente ganhará uma dedicatória em algum livro, que é a Madonna de meus sonhos e poemas. Das músicas e quadros modernistas. Dos poemas de bar onde não consigo evitar de te citar como a Menina Travessa que sempre finge me esquecer... Ou deveras esquece-me mesmo. Sou mero brinquedo.
Diz-me por que abusas tanto do teu orgulho, Camena?
Ou de mim, ao menos.
Não sou poupada e muito menos arranjo pousada na tua vida. É um teste pra ver o quanto aguento? É um castigo por ter voltado a casa de meus pais sem desperdir-me de ti?
A verdade, talvez seja, que eu entrei nesse barco sozinha e o sol nunca deixa de ser meio-dia, fazendo com que meu único refúgio seja imaginar qualquer coisa na falha tentativa de manter-me sã.

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Camena

Camena, minha menina
Tu és cerveja, cigarro e suor
Cachos, sorrisos e abraços,
vários gestos num só.

Tu não és morena, Camena
mulher serena, filha de Ogum
muito menos amiga, filha ou avó.
Quando vou descobrir que nunca serás
- de um homem só?

Teus versos não me iludem mais
tua prosa não me satisfaz
Oca. É assim que te vejo.
Ecos. É a única resposta que tenho de ti.

Mas teus cachos, ah teus cachos.
Esses Camena, são donos de mim.
E teus lábios, abraços e cochichos
Calam os avisos que tentam me afastar.

Sou louco desvairado
Embriago-me em teus abraços
-curtos abraços.
E divago, e viajo e desejo-te perto.
E então devoro-te e acabo com este fardo.

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