sobre o blog
Invento para mim muitas horas vagas e a maior parte delas fica arquivado aqui. Um pequeno registro de curiosidade, sêmica significa qualquer meio de transmitir o pensamento.
foto do painel: "... when time goes..."
Minha língua suja prefere teu corpo púrpura
e na brincadeira do ser, do riso, das pernas e das bocas
escreveu versos póstumos em tua loucura.
Quer Ágda-luz, meus arroubos, minhas mãos toscas?
Estive aí e esperei tua procura
Como cão insano que morde rindo
Jovens DOM zelas do próprio cu. Eram loiras?
Não. Apenas poesia-breu-poema-breu- vinho- sorrindo
Não devias confiar numa pílula aZul
Desempenho e divertimento numa cama e nus
jamais vem incluídos no kit "ressuscita morto"
Mas tu, menina. Não queres provar minha língua.
Apenas diverte-se com minhas falácias
E por isso aviso-te: falácias até excitam
mas somente por elas o gozo não vem.
- Agora temos duas horas de diferença nos separando.
Lá já passam de uma da manhã, ela com certeza está prestes a dormir. Mas não posso recusar essa conversa. Afinal, eu mesma tinha começado. Gosto de nossas conversas. Gosto do seu riso fácil. Há também seus textos e para minha surpresa: poemas. Era disso que falávamos antes, só não sei como chegamos nesse tópico. Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las.
- O que são duas horas de diferença... Imagina, poderia ser um oceano.
Ela mal sabe, mas eu tenho pavor de oceano. Nunca estive em um, mas oceanos tem me separado de alguns amigos. Uns voltaram e acertamos nossos passos, outros decidiram ficar no velho mundo.
- Um oceano é terrível! Aumenta a diferença para seis, sete, oito horas!
Você, a calmaria nessa madrugada, soube amenizar a distância. Afinal, pra quê pensar nela se há tantos meios de estar perto? E nossas palavras, nossas prosas e agora piadas, fazem todo o trabalho. Juntam todo esse laço que de tão embolado em versos, músicas, desenhos, insônias, cervejas, batatas é difícil de separar. De nos separar. Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las. Estou tão bêbada que me sinto corar, mas você leva na graça, faz pirraça e tentar se aproveitar. Eu leio teus poemas, me enrolo nas rimas e no dadaísmo que neles há. Elogio e ainda assim não acho que tenha feito elogios diferentes pra te incentivar.
- Esse lado poeta que tanto escondes
Mostra mais do que tuas prosas
Esses versos ora mirabolantes
São silhuetas escaldantes de um ritmo enebriante.
Você não sabe como foi difícil escrever silhueta. E essa rima foi mais pobre que minha conta bancária.
- Eu gosto do jeito que você escreve.
- Estamos empatadas, pois.
E quantos anos vamos levando nas costas essa amizade que coube de engatar direito só agora? Pensando bem, antes tarde do que nunca. Gosto de dizer que estás segura debaixo do meu sovaco e sei bem que me entendes junto com um sorriso de canto.
- Vou ler os outros poemas, não fuja.
- Estarei aqui.
Já não faço ideia de que horas seja. Meu corpo estava esgotado, mas queria continuar ali, conversando contigo. Havia um peso enorme fechando meus olhos. Teimei por um bom bocado de tempo, você raramente conversava comigo pelas madrugadas. Não, na verdade era eu que nunca tirava um tempo pra conversar com você nas madrugadas. Malditas cervejas que outrora fiquei feliz por bebê-las. Apenas um olho aberto. Eu estava ficando velha. Algumas cervejinhas e já estava cochilando. Rendi-me, então.
Tem outra versão aqui, no Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez
- Você viu o que andam comentando, não é?
- Não tenho culpa. Ando sem tempo. Você sabe... A universidade, a escola, o escritório. Agora tenho um cachorro pra cuidar também. Um não, três.
- Você é especialista no dolce far niente, não me venha com desculpas.
- Até tu, Brutus?
-São apenas os fatos. Você se empolgou com essa vida boêmia, com esses trocados e cigarros mirrados sob o sol de setembro. Não adianta negar. Pode até haver universidade, escola, escritório e seus cachorros. Mas ainda assim você tem tempo pro café, pro cigarro, pra cerveja, pra um filme, pra ler Vila-Matas, pra discutir Teorias Literárias, pra conversar seja com quem for. Mas parar pra pensar como fazia antes, dedicar um tempinho a mim... Isso você nunca mais fez. Do que está fugindo agora?
- É isso que parece? Que eu vivo fugindo?
- É você quem diz.
- É você quem lê.
- Não adianta querer encerrar o assunto. Você não tem aula hoje e o Latim está bem adiantado. Aliás, parabéns. Seu cérebro parece uma sopa de letrinhas, onde elas se juntam e formam palavras como Scurra. Ou frases como Agda scurrae est.
- Você tá pegando pesado agora. E eu nem posso prometer nada...
- Porque você nunca cumpre promessas e é impulsiva e etc etc etc. Eu sei, eu sei. Não entendeu ainda o que quero?
- Entendi. Só não sei se quero escrever. Esse assunto tá por demais desgastado. Não pode ser resenha de livros?
- Claro que não, você tem outros blogs pra isso.
- Então é Escrever ou Morte?
- Exatamente.
- Vou pensar.
- E escrever.
- Isso. Vou pensar e escrever.
- Eu sabia que você cederia. Você sempre cede. Por que não discutiu e defendeu seus direitos de viver como quiser? Que tipo de jovem é você?
- Não sou jovem. Sou um E.T, fugi da área 51 quando a Guerra Fria acontecia. Eu gostava mais dos russos, mas o navio pirata que peguei levou ao pé da letra quando falei que queria ter uma "Boa Vista" pra mim. Acabei parando aqui, sem lenço e sem...
- Documento, eu sei. Não cante essa música. Aliás, você deixou a Sony esperando na universidade. É melhor ir, você sabe que ela fica irritad- Hey! Hey! Você esqueceu seu bloco de notas! Droga. Ela vai me enrolar de novo.
Poema escrito em parceria com meu amigo Daniel Lira durante nossa viagem à São Paulo nas ~grévias~ de Julho/Agosto de 2012. Nesse dia improvisamos um piquenique durante o horário de almoço com nossa amiga Juliana Cimeno e ela aproveitou e tirou algumas fotos.
Cinza é o dia
o céu e as pessoas.
Triste é o frio
e a interminável garoa.
Mesas coloridas
não fazem tanta diferença
A graça da vida
Cabe n'alguma crença
Começo a inquirir o motivo tão vão
Que pus-me a entrar nesse mesmo vagão
no qual nossa vida mudou de repente,
no qual o destino mostrou-se contente
Só sei que nesse mesmo vagão
criamos a tradição de cantarolar
um trechinho do Trem das Onze
E casa é onde qualquer amigo nosso está.
Eu estava assistindo Pierrot Le Fou, do Godard, quando apareceu Ferdinand e as dinamites. Eu já havia visto aquela cena, tu havias me mostrado há algum tempo. Depois disso não consegui parar de pensar em ti. Comecei a assistir outro filme, mas tu estavas tão presente em minha mente que ao olhar para o outro lado da cama lá estava você.
Com seus óculos de armação grande e dourada, seu cabelo amarrado num coque e sua franja bagunçada. Tu escrevias avidamente no notebook que parecia nem perceber que eu estava lá. Eu sabia que escrevias sobre outra pessoa, mas eu ainda esperava que um dia tu escrevesses sobre mim.
Isso só iria ocorrer quando eu saísse da sua vida. E era algo que eu não queria. Pelo menos naquele momento.
Aproximei-me de ti. O outro filme continuou passando na TV. Eu queria e não queria que tu notasses que eu estava lá. Talvez por medo de você sair da minha vida.
Você colocou Chico pra tocar baixinho e me olhou sorrindo. Sabia que eu gostava daquele malandro mais do que ninguém. Cheguei mais perto, ajeitei sua franja, beijei tua bochecha e cantei:
- Eu sou pierrot...
- Mas é carnaval. Você completou colocando o notebook de lado.
Acho que se estivéssemos na mesma cama, eu falaria mil bobagens pra te ver sorrir, tocaria de leve sua pele e recitaria as odes de Ricardo Reis. Falaria de Modigliani e desenharia alguns quadros dele nas tuas costas. Escreveria versos no espelho do banheiro e te levaria ao parque sempre que o sol te deixasse mais linda. Tu sorririas, me daria beijos e deixaria bilhetes pela casa com versos de músicas. Dividiria o café comigo em qualquer momento, falaria de filmes que preciso ver ao teu lado e me faria ver quão bela é a chuva. Você seria bem mais importante do que o número 7 é na minha vida.
Eu tinha um belo diálogo formado na cabeça, onde não havia fim. Onde você sorria pra mim e ficava ao meu lado. E até sei que você vai sorrir pra mim e vai ficar ao meu lado, mas não como eu preciso. Ou pelo menos como acho que preciso.
Então você não estava mais no meu quarto. Chovia lá fora e dentro de mim.
Meu melhor amigo é assim:
Luz, escuro, luz, escuro
Nascido nas matas de Mato Grosso
Liberté
É de certo modo contraditório como aprendi o sentido de liberdade. Antes algo utópico pra mim. Antes algo inalcançável. Mas perto de você muitas coisas mudam ou adquirem mais de um sentido, ou perdem o que tinham. Perto de você um homem vira um pássaro e uma flor brilha no escuro.
O sentido de liberdade consiste na criação de laços e não no oposto. E tão distante estamos, mas acaba que você é quem tenho por mais tempo no meu dia e que até presta atenção se coloco uma vírgula ou não. E quem mais me daria a liberdade de falar sobre tudo e sobre nada e sobre o que há no meio dessas estradas esburacadas?
Liberdade é criar e manter bem seguros esses laços. É um gato na estante, é um livro sobre uma menina invisível, é uma carta escrita no escuro, é o chá depois da calmaria, é a tua risada estridente sobrepondo a minha, é a luz da vela em forma de meia-lua.
Liberdade é sentir tua presença mesmo com esse Brasil no meio.
Egalité
Uma balança. É o que me vem à mente. Mas não que esses sejam os princípios básicos de uma amizade. Não é esse o propósito. Não sei bem o sentido, ou motivos de tais frases. Foi só uma brecha da minha caixa de Pandora que foi aberta e escapuliu essas palavras, meio tortas e atrofiadas. Porém, verdadeiras aves aladas. E não corvos, ou corujas. Alguma bela ave. Alguma de canto suave.
Igualdade é para mim um longo aprendizado. Onde preciso correr atrás de você para tal ato. Claro que sem abranger toda uma vida. Pois igualdade demais provavelmente me deixaria perdida. E por hora, preciso aprender a ouvir. Esse provavelmente é um ótimo passo. E é contigo que devo, quero e tenho aprendido.
et Fraternité
Podes até ter o abraço desajeitado, podemos até não ter por ora a facilidade de um diálogo sem uma tela branca à frente, posso até enrolar com presentes, podemos até ter um continente no meio, podes até ficar brava comigo por coisas mínimas e máximas, podemos opinar por coisas diferentes, posso até tentar brincar com posso, podemos e podes... Mas ainda assim tu me lerás com carinho e atenção velada. Com a mente ligando cada frase dita a cada momento nosso, com um sorriso no canto da boca, ou aquele soltado pelo nariz, com o Draco a sapatear no colo pedindo atenção, com mil pessoas falando contigo e eu do lado com um tom de desolação que logo você tira dando-me um leve empurrão.
Que mais posso dizer, em meios quase rimados em prol do teu bem querer?
És tu a minha revolução, Francesca.
Diana, menina, tua voz me encanta
Divina a mim parece
E passas a reger minha vida.
Rezo pois uma prece
Que diminua essa distância ferina.
Diana, divina menina! Tu és ferina!
O sol sob tua pele faísca
faixos de luz e desejos.
Tua voz soa junto a sorrisos.
Juntando assim meus lábios aos teus.
Um terno modo amarrotado e abobalhado em agradecimento à Diana pela bela voz emprestada aos meus versos.
O sorriso talvez não seja de ninguém,
mas que a gente sempre pode distribuir por aí.
Embora essa minha habilidade ande perdida, ou estragada.
Embora eu ande perdida e estragada.
Embora tem ido tanta gente que me agarro a tuas palavras.
Tu, que já pensei ser tantas pessoas e cansei de brincar.
De tentar adivinhar.
Impaciente até nas horas de azar.
Vem cá, me completa com teu ar.
Andei pelo campus
E algumas florzinhas
perdidas, secas e amarelas
- eu vi.
Mas foram os teus versos
Tuas palavras brincalhonas a sorrir
E a pedir sorrisos
que fizeram desses campus
algo mais lindo e criativo.
Dá-me mais das tuas palavras
Que o sorriso gerado por elas
É mais puro do que ao ganhar
a mais bela das flores.
Doce sorriso banhado de vinho
tão longe se encontra agora
E tão presente.
Engraçado é essa vida.
Mas a ti, perto ou longe
desejo os melhores vinhos
Os mais sinceros sorrisos
Os abraços mais quentinhos.
E como canta os Hermanos:
"Esse é só o começo do fim da nossa vida"
Então aproveita, cria teus sambas
Pois deles quero presentear meus ouvidos.
E aqui me despeço
Com esses reles versos
Dedicados a ti com carinho
Conquistados por teu belo sorriso.
Durante alguma aula de Teoria Literária do prof. Mibielli, eu desafiei a Jacque a escrever um poema a 20 dedos, onde a única condição era de haver pelo menos duas palavras que iniciassem com a letra "P" em cada verso e pouco importando a ordem das palavras. Eis o resultado abaixo que até contou com a participação do próprio Mibielli, então, tecnicamente o poema foi feito a 30 dedos!
Um prosa com uma pedra
é mais preciosa que uma pessoa
Gente com pedra finca os pés na raiz do tempo
A terra fértil da prosa presa no emaranhado de dedos
Parcos dedos que logo viram pó
Pais, filhos, avós e demais parentes
- Ficai contentes!
Uma prosa com uma pedra sorrateiramente desafia o olhar
dos que passam e não veem. A pedra, naturalmente, pesa.
A prosa, ironicamente, não afaga. Persistentemente
Existe.
E do pó precioso é de que são feitas as pessoas
A prosa com a pedra persiste e pesa no peito dos pais
Povoando o mundo de dúvidas e pune
o poeta que já perdeu a pura boêmia.
Prova de um mundo perdido
Pelo descaso pittoresco
Marcado em algum quadro no museu de Picasso em Paris.
Onde apenas "a prosa preenche o espaço".
Anunciaram e garantiram que a gente vai se casar.
Mas me diz primeiro a tua Graça
Pra ver se todo esse alvoroço
Dá algum sentido pra tanta fumaça.
E já comemoram bodas de prata
Mesmo que o bolso nosso de cada dia
Viva há mais de mês
sem um puto pra se coçar.
Pois peço que se acalmem os ânimos
Não carece casamento
A meu ver trata apenas
do puro desperdício de tempo.
Qual tua Graça,
dona de belas palavras?
Diz-me.
E diz-me sem trapaças.
Dia 26 de Março: o dia em que Belém do Pará passou a fazer parte das rotas de fuga.
E é engraçado afirmar (afiar o mar) isso. Ao mesmo tempo que dá um alento (tudo muito lento) na alma.
Faz tempo que tenho usado alento em tudo que é canto (pra te encantar). Talvez seja só um "T" esperando ser bem pontuado (ou tatuado) na frente.
Mas o caso é que apaixonei-me por palavras de novo. E como é bom se apaixonar por elas. Juntinhas, fazendo ritmo, significando o que nada foi dito ou ainda sentido. É engraçado, afirmo novamente (isolentemente). Todo esse sorriso bobo que a segunda-feira me deu.
Lembrei que Niterói também me chamou. E eu achando que havia sido esquecida por lá junto aos Liliputianos. Tudo tão poético e insone. Tudo acontecendo ao mesmo tempo, trabalhando em prol das engrenagens de um sorriso ou de uma meia-cova. No fim os dentes ainda aparecem.
Umas vidas a mais pra esconder debaixos dos meus cachos. Umas vidas a mais que em poucas horas (poucos minutos) já estão eternizadas nesse 26 de Março, que pode ser um 11/11/11 também. Eu também quero esconder-te num potinho.
E só os benditos de coração, alma, berço e um gole de cachaça que passaram por esse 11/11/11 ou 26/03/12 sabem seus sábios significados e eu pensaria em outra palavra com "S" só pra essa frase soar soave e pra que tu soltes uma gargalhada, mas eu me contento com um sorriso. Eu sempre me contento. E esse tento fica por marcar a madrugada em que não consegui nos musicar.
O vento arrasta as folhas bem devagar. Bem do jeito que eu queria ver os meus sentimentos levados. Todos eles. Ou só aqueles que sempre ficam ligados a algum canal lacrimal.
E que outro vento trouxesse os donos dos abraços mais aconchegantes que já tive, e os donos dos abraços desajeitados também.
Não era pra ser assim, Beethoven.
Para Larissa M. Kuk
Nêga, não negue
Saudades de mim tu deves ter.
E então, peço que Deus me leve
pra bem perto do teu querer.
Pois só assim essa minh'alma
de negro cativo arranja sossego.
Só assim perto dos teus fartos seios.
Ah, morena!
Meu medo é esquecer teu sorriso
Tua gargalhada rouca
E as minhas noites loucas
onde tu me apresentastes a paz.
Como podes ver
Amanheci pensando em ti.
Lembrando cada pedacinho teu que me foi dado.
E aqui, largado ao acaso
Fico a cutucar o buraco em meu peito
A justa parte que a te pertence
E nada mais preenche.
Ah, minha nêga, não me negue
Que esses versos te cheguem aos ouvidos
e te façam sorrir outra vez.
Eu tenho um medo imenso em soltar qualquer frase que signifique algo eterno ou pelo menos até o fim de minha vida. Tenho medo até de simplesmente reconhecer que gosto de alguém, de pronunciar isso a ela, de criar uma esperança. O medo talvez caiba somente em destruir tudo isso depois. Tenho medo de gostar por saber que vou perder. Passo a gostar como se ja tivesse perdido. E talvez isso explique toda a intensidade dos últimos anos.
Essa talvez seja a verdade. Eu tenho medo de destruir aquilo que declarei outrora. O amor a alguem, o gosto por certa música, certo livro e certas pessoas. Então, talvez por esse medo, fico calada (às vezes nem sempre). E é tão complicado viver assim.
E tentando ver como qualquer pessoa de fora, eu diria que não me permito mudar.
Mas eu mudo. Pro lado bom ou ruim. Para os dois lados. E a cada mudança algo fica pra trás. E tantas coisas ja ficaram para trás na minha vida. Eu ja fiquei para trás em tantas vidas também.
E em algum cruzamento de memória, nos encontramos como em uma Polaroid de 1970. Em sépia, preto e branco ou amarelados. Aquela legenda engraçada no verso lembrando que foi bom e aqui entra o "enquanto durou". Os velhos sorrisos amarelos, os cumprimentos desajeitados, as perguntas básicas e a pressa em se livrar logo de todo o constrangimento que nós mesmos criamos.
Eu realmente desejaria que tudo naquele verão tivesse acontecido diferente. Que eu tivesse ao menos sido sincera e que você tivesse sido compreensiva. Mas eu destruí as frases que foram ditas em 2008 e repetidas tantas vezes. Confesso que tentei jogar alguma culpa em você, sentir raiva, esquecer e seguir adiante. Mas as nossas polaroids de 1970 foram muitas. É bem difícil disfarçar. Não senti raiva, ódio ou qualquer coisa ruim. Muito menos esqueci. Fiquei triste por ver que havia perdido e sem coragem alguma para ao menos tentar recuperar.
Ainda não aprendi a pedir desculpas. Talvez eu só aprenda quando passar a me perdoar primeiro. E se um dia eu aprender, eu te pediria desculpas por aquele verão. Acredito que depois disso passaria a ver já com certa saudade e não com certo incômodo a nossa polaroid na Casa das Flores (ou seria Casa das Rosas?), onde estamos sorrindo para a câmera, o vento bagunçando nossos cabelos, as rosas atrás de nós e a legenda atrás dizendo: "Por você, eu faria isso mil vezes."
O tempo podia passar, mas o encantamento era o mesmo desde o primeiro dia que nos vimos. Naquela sala de aula da universidade, com cadeiras duras, que maltratavam nossas costas durante as quatro horas de aulas que tínhamos todas as noites entre aquelas paredes amareladas com o tempo e as janelas de vidro colorido. A barba nunca feita, o sorriso de garoto, a voz de homem, o aperto de mão de menino e as convicções de um velho de setenta anos.
Todos da sala apostavam em nós. Mas eu sou um alvo errante, ou um míssil errante. A gente nunca estaria junto como a turma imaginava.
Passávamos praticamente o dia conversando. Exceto pelas manhãs. Você tinha a sorte de poder dormir de manhã. Eu não, tinha que trabalhar. A tarde já nos encontrávamos na universidade, você com seu café, eu com meus cigarros que te aborreciam. E toda a turma feliz por estarmos juntos conversando. Mal sabiam eles que estávamos discutindo alguma teoria, ou falando de música, de nossas viagens... No fundo, éramos dois velhos conversando.
Na sala de aula, cada um de um lado da sala. Era nossa Guerra Fria. Eu a comunista de boutique, você o capitalista disfarçado. Até que as aulas eram animadas quando você estava presente. Eu tinha alguem a minha altura para rebater minhas bobagens acadêmicas. Mas você raramente rebatia. Ao menos não em sala de aula. Parecia aguardar sempre as madrugadas. Preparava o café, as cadeiras na varanda, o cinzeiro pra mim, os livros para comprovar. Preparava o campo de guerra.
Era uma batalha perdida pra mim. Mas ainda assim eu sacrificava algumas horas de sono, feito mãe zelosa a cuidar do filho doente. Atravessava algumas ruas, entrava pela garagem, pisava na grama macia ja molhada pelo orvalho da madrugada. Sentava na minha cadeira, acendia o cigarro e esperava você vir com o café. As noites daquele verão ajudavam. As estrelas nos assistiam. Conversas amenas, debates ferozes, silêncios confortáveis.
Aquelas horas a menos de sono ficaram marcadas nas minhas olheiras.
Agora você tem outra pessoa. Ja não senta mais na varanda, ja não tem mais horário desregulado de sono, já não bebe tanto café, fez a barba, usa sapatos social, o sorriso mudou, os ombros estão caídos, os olhos abatidos e o aperto de mão é desconfiado.
Hoje minhas madrugadas continuam as mesmas: café, cigarros e estrelas. As vezes tenho sorte de encontrar alguem pra conversar, mas ninguém consegue ser tão rabugento quanto você.
Os costumes abaixo da Linha do Equador são bem diferentes. Os costumes de quem vive acima também. Mas isso é apenas uma questão geográfica. Afinal, os costumes de quem vive próximo a Linha do Equador, tanto em cima quanto embaixo, são diferentes.
Eu vivo acima e bem próximo a Linha do Equador. Já consegui a façanha de estar em dois lugares ao mesmo tempo. E acostumei com a definição de Amazônia Caribenha.
O clássico - e desconhecido ou esquecido pelo resto do mundo - exemplo são nossos invernos e verões. As únicas estações definidas por aqui. Invernos secos e verões chuvosos. Aprendemos isso na escola e na prática. Com o tempo se acostuma. Chuvas longas também não existem por aqui. São rápidas e muito fortes. Derrubam árvores, arrancam telhados e se o clima estiver muito bagunçado, causa até inundações.
Na teoria, você é meu verão chuvoso. Sei que gosta de se denominar inverno, mas o inverno que conheço é diferente do seu.
Sempre vivemos na teoria. E de certo modo ela foi bonita, gerou lágrimas, risos e alguns arranhões. Certa vez, até um quase atropelamento. Na teoria, você sendo o meu verão chuvoso, inspirou muitos textos como este, inspirou muitos sonhos, suspiros... Ah, aqueles tempos. Mas até nas teorias algo dá errado. Eu, claro, estava errada. E essa talvez seja a milésima vez que falo isso.
E então vieram os trovões. E os raios sempre caiam no mesmo lugar.
Nunca tive deuses pra clamar misericórdia, pedir proteção. Então recorria aos amigos. Diversas opiniões. E o verão chegava. O céu nublado, ventos fortes. Tudo envolvendo-me.
Tu envolvendo-me.
A cumplicidade excessiva destroçando a teoria. O verão chuvoso destruindo meu telhado. Misturando a chuva com tuas lágrimas, com as minhas. No final era tudo água.
Ainda há uma certa relutância, uma certa dor em partir para o sul. Pra bem longe do Equador. Desse verão que me aquece, que me molha, que me inunda de amor. Há uma certa dor...
A maior parte da casa estava escura. Alguns fumavam na varanda, outros estavam espalhados pelo quarto e alguns abandonados na cozinha. Todos um pouco bêbados, um pouco cansados e um tanto exaltados. Fazia quase um ano que não se juntavam para fazer algo. As conversas desconexas cansavam todos, mas sair dalí parecia não ser uma boa opção aquela hora. E nem era tão tarde assim. Você podia respirar e sentiria a tensão que a casa carregava. E se fosse bem esperto, ficaria longe dela. Era o fim das férias, o fim do inverno seco, o fim de Janeiro, o fim de algumas amizades.
Jaya cansada de ouvir as mesmas histórias, usou a desculpa de que precisava fumar para sair do quarto, para fugir de todos aqueles risos mascarados pelo álcool. Há alguns anos, era diferente. Todos desejavam a presença um do outro, era uma sede que só aquele grupo poderia suprir, eram os problemas que só aquele grupo entenderia as queixas e teria soluções. Mas hoje os problemas só aumentaram, e nem o álcool consegue mantê-los no mesmo lugar. Alguns desejavam poder se duplicar para que de algum modo ter a noção de união que outrora existira.
O único faixo de luz que vinha era do quarto. Jaya caminhava com cuidado mesmo a sala não tendo nenhum móvel. Os risos vinham do quarto, da varanda, da cozinha... Tão forçados e ridículos que nem para atores aqueles que ali estavam serviam. Mais um pouco a frente, um vulto movia-se na escada. Alguem que como ela, parecia não suportar estar no quarto ou na varanda.
- Oh, é você Lola. Tá sentindo algo?
- Não, nada. Só quero ficar quieta aqui.
- Ah, ok. Vou ficar quietinha aqui, tá bom? - Jaya falou sentando-se na escada também. Colocou os pés no vão e ficou balançando-os. Não ousava olhar para baixo. Estava muito escuro e sua imaginação só precisava de um vulto para começar a criar outro mundo. Fechou os olhos e pôs a escutar a respiração de Lola. Era pesada como de todos os outros na casa.
Elas duas nunca foram de conversar muito. Não por haver tantas diferenças, mas por falta de oportunidade. Jaya conversava com todos, mas era reservada. Ambas eram reservadas. Jaya fumava, era mais velha, mais indecisa e era boa ouvinte. Lola cantava, era a caçula, perfeccionista e achava Jaya a pessoa mais estranha que conhecera.
- Faz muito tempo que não sinto nada. - Começou Lola. Respirava bem lento, procurava as palavras certas para descrever como se sentia. Mas o que ela não sabia, é que palavras certas nunca existem. Palavras são apenas palavras e por mais que você as escolha, um bom ouvinte sempre saberá do que realmente se trata. - Faz muito tempo que todo começo de ano eu acho que vou fazer tudo direito, que vou encontrar um bom namorado e que vai durar. Mas nada disso acontece. Faz tanto tempo que eu já não espero mais nada desse ano. Eu não entendo, todos tem seus namorados, namoradas, empregos promissores, um carro, uma casa e eu ainda nem saí da casa dos meus pais.
- Eu também moro com meus pais, é bom. Morar sozinha tem lá suas vantagens, mas apesar de muitas reclamações, eu prefiro morar com meus pais. Também não tenho namorado, mas bom, não tem me feito falta.
- Jaya, você tem seus casos.
- Casos e acasos, Lola. Mas o assunto aqui é você. Continue falando. Você vai encontrar a resposta.
- Eu tranquei a faculdade.
- Bem-vinda, tranquei 3.
- Ainda sou virgem.
- Isso é algo que a sociedade impõe. Você realmente não devia se preocupar com isso. Exceto se seus hormônios pedirem.
Elas riram. O ar já estava mais leve. Os risos nos outros cômodos haviam diminuído. Jaya sentiu vontade de fumar um cigarro, mas sabia que Lola esperava que ela a escutasse mais um pouco. Pigarreou alto como que incentivasse Lola a continuar a falar.
- Não sei realmente o que quero fazer da vida.
- Ah, minha cara... Não vai ser eu quem vai te dizer o que fazer. Comece pelo seu quarto, pela sua casa, pelo seus pais. De algum modo os planos irão surgir. Siga seu próprio tempo, mas por favor, que ele não seja lento demais. O mundo não espera pela gente. Temos sempre que correr atrás dele, atrás de tudo. Não fique sentada apenas olhando a escada. Prepare outro martine e brinde a vida que tens. Busque sempre valorizar o que tens e quem tens por perto. A gente anda meio degastado em termos de valorizar algo, mas temos um ano pela frente para fazer diferente. Não acha?
- Acho que você deveria largar Letras e fazer Psicologia.
- Não mesmo! - Jaya retrucou rindo. - Sua melhor amiga, que cursa Psicologia, está bêbada lá dentro e se quer notou sua ausência.
- Você notou a minha?
- Achei que estava lá na varanda com os outros.
- Então não notou.
- Entenda como quiser.
Jaya levantou e começou a descer as escadas. Não podia mais adiar o cigarro e já havia escutado Lola mais do que o necessário. Estavam bêbadas, não lembrariam de nada do que falaram no dia seguinte. As pessoas do quarto saíram, arrastaram Lola de volta. Jaya foi para os fundos da casa fumar seu cigarro. Precisava do seu tempo quieta. A noite ainda estava longe de acabar e ir pra casa não era uma boa opção. Fumava um cigarro atrás do outro. Janeiro passara tão rápido e ela ainda estava desempregada. A única luz que havia onde ela estava era da brasa do cigarro. Há alguns anos que a brasa do cigarro era sua única luz. Alguem se aproximava aos tropeços em sua direção.
- Oh, Jaya, é você. Tá bem?
E quando Jaya ia responder, a mulher vomitou bem perto dos seus pés. Jaya largou o cigarro e foi ajudar Gisele, que provavelmente estava entrando em seu trigésimo coma alcoolico em menos de dois meses.
Jaya nunca tivera a sorte de encontrar um bom ouvinte. Todos estão surdos e ninguém nota. Todas as notas ecoam nas paredes e as almas estão trancadas num poço sem luz, sem água e com pouco ar.